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MP pediu prisão de padre Robson por suspeita de irregularidades na Afipe, mas Justiça negou

Segundo promotoria, 'há vários anos', ele estaria se apropriando de recursos da Associação dos Filhos do Pai Eterno, a qual fundou em Trindade e movimenta R$ 20 milhões por mês. Porém, juíza indeferiu justificando que religioso é 'primário e tem bons antecedentes'.

21/08/2020 20h02
Por: Anna Oliveira
MP pediu prisão de padre Robson por suspeita de irregularidades na Afipe, mas Justiça negou

O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) pediu a prisão do padre Robson de Oliveira Pereira, reitor do Santuário Basílica de Trindade, no âmbito do processo que apura irregularidades na Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), da qual é presidente. No entanto, a Justiça negou a solicitação.

O corpo jurídico da Afipe informou que "não foi pego de surpresa" com a operação e que, no passado, "se colocou à disposição do Ministério Público". Salientou ainda que o padre Robson acompanhou toda a operação e que tudo segue em "extremo sigilo".

A operação "Vendilhões" foi deflagrada na manhã desta sexta-feira (21) para investigar diversos crimes, inclusive lavagem de dinheiro que era doado à entidade para arcar com os custos da construção do novo Santuário Basílica. Foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão, em imóveis de Goiânia e Trindade. Inclusive, em propriedades de luxo vinculadas ao padre Robson.

Em sua justificativa para pedir a detenção, o MP-GO afirmou que a prisão era necessária porque o padre, "há vários anos", estaria se apropriando de recurso da Afipe, bem como "promovendo a transferência de bens desta para terceiros". Além da prisão, pleiteou ainda que ele fosse afastado do cargo diretivo da associação, bem como proibido de entrar nos imóveis da entidade.

A promotoria ressalta que o padre administra entidades que recebem mais de R$ 20 milhões mensais em doações de todo o Brasil e estaria usando os valores em benefício de terceiros. Foi constatado que, nos últimos dez anos, a associação movimentou em suas contas mais de R$ 2 bilhões.

De acordo com a denúncia do MP, houve pagamentos indevidos de cerca de R$ 120 milhões, só nós últimos três anos, por parte da Afipe para grupos de empresas e pessoas. Constatou-se que esses gastos não tinham vínculo com questões religiosas, mas com outros negócios, como a compra de imóveis, propriedades rurais, cabeças de gado e emissoras de rádio, diz o MP.

Promotores cumprem mandado de busca e apreensão na casa do padre Robson — Foto: MP-GO/Divulgação

Promotores cumprem mandado de busca e apreensão na casa do padre Robson — Foto: MP-GO/Divulgação

Juíza indeferiu pedido

Porém, em seu despacho indeferindo o pedido, a juíza Placidina Pires, disse que o padre é "líder religioso, primário e de bons antecedentes criminais".

 

Ela ressaltou ainda que "a simples existência de indícios da prática de crimes de natureza grave" não são suficientes para determinar a prisão do religioso". Destacou ainda que na denúncia do MP, "não há informações concretas de que, em liberdade, o padres investigado destruirá provas ou intimidará testemunhas", não sendo necessária sua prisão.

Pelos mesmos motivos, a magistrada também negou os pedidos de afastamento do cargo diretivo e da proibição de acesso do padre à Afipe.

Crimes investigados:

  • Apropriação indébita
  • Lavagem de dinheiro
  • Falsificação de documentos
  • Sonegação fiscal
  • Associação criminosa
MP-GO deflagra operação que apura suspeita de irregularidades na Afipe, responsável pela Basílica de Trindade Goiás — Foto: Gabriel Garcia/TV Anhanguera

MP-GO deflagra operação que apura suspeita de irregularidades na Afipe, responsável pela Basílica de Trindade Goiás — Foto: Gabriel Garcia/TV Anhanguera

Caso de extorsão originou ação

De acordo com o MP, a operação se originou por conta de outra investigação vinculada ao padre Robson. Conforme o apurado, na ocasião, o religioso, após ser vítima de extorsão, "utilizou indevidamente recursos provenientes de contas das associações que preside".

Um hacker chegou a ser condenado por extorquir R$ 2 milhões do padre, ameaçando revelar um suposto caso amoroso do religioso. Porém, a polícia apontou que as mensagens usadas para extorquir o padre eram falsas.

Momento em que promotores cumprem mandados na casa do padre Robson — Foto: Guilherme Rodrigues/TV Anhanguera

Momento em que promotores cumprem mandados na casa do padre Robson — Foto: Guilherme Rodrigues/TV Anhanguera

 

As investigação sobre o caso de extorsão apontaram que o padre Robson foi extorquido durante cerca de dois meses, entre março e abril de 2017, e que teria repassado parte do valor solicitado usando contas da Afipe. No entanto, na ocasião, a entidade disse que “não teve nenhum prejuízo financeiro e todo o valor já voltou para a instituição”.

De acordo com as investigações, o dinheiro foi repassado por transferências bancárias e entregas em espécie. Os pagamentos eram feitos em quantias de R$ 50 mil a R$ 700 mil. Em alguns casos, o valor era deixado dentro de um carro na porta de um condomínio ou no estacionamento de um shopping da capital. Uma das entregas foi supervisionada pela Polícia Civil a fim de identificar e localizar todos os criminosos.

Operação cumpre mandado em propriedades de luxo vinculadas a padre Robson — Foto: Reprodução

Operação cumpre mandado em propriedades de luxo vinculadas a padre Robson — Foto: Reprodução

Padre Robson

Natural de Trindade, padre Robson, de 46 anos, é uma figura presente na cena católica. Ele também tem um programa em que promove momentos de reflexão com base em trechos da Bíblia e experiências pessoais, além de conselhos àqueles que pedem orientação religiosa.

O caminho dele para o sacerdócio começou aos 14 anos, quando entrou para o seminário e, uma década depois, se formou padre. Estudou por alguns anos na Irlanda e em Roma, na Itália, onde se formou mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

 

O religioso voltou para Trindade em 2003, como reitor do Santuário do Divino Pai Eterno, cargo que ocupou por 11 anos. Em 2004, ele fundou a Afipe.

Entre 2015 e 2019, foi Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás. No entanto, depois disso, voltou à reitoria da Basílica, cargo que ocupa até então.

Dinheiro apreendido na sala do padre Robson, na Afipe — Foto: MP-GO/Divulgação
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